O Montenegro disse: " O País está bem, o povo é que não". Qual o país que possa estar bem, com um povo empobrecido e sem futuro? Um país com taxas de desemprego altas como a nossa, como pode estar muito bem, segundo o que dizem os estarolas?
Vejam esta notícia do Publico de 28OUT14:
"O banco até já esteve a ameaçar os meus pais que ia tirar a casa”
"Unicef aconselha Governo a criar uma estratégia nacional de combate à pobreza infantil e recomenda acesso gratuito às creches dos 0 aos três anos de idade para as famílias mais pobres.
Há medo de perder a casa, preocupação face à tensão em que sentem os pais, receio de que a comida desapareça da mesa. Além de mostrar que os casais desempregados aumentaram 688%, só entre Outubro de 2010 e Julho de 2013, o relatório da Unicef intitulado As Crianças e a Crise em Portugal é o primeiro a debruçar-se sobre o real impacto da crise entre as crianças e os adolescentes portugueses.
Ao dar-lhes
a voz, o documento divulgado esta segunda-feira levanta o véu sobre uma
realidade demasiadas vezes escondida entre quatro paredes. “Quando a
senhora dizia o preço dos remédios, o meu pai ficava assustado, porque eram
muito caros e eram imensas coisas”, conta uma adolescente de 12 anos, uma entre
as 77 crianças, com idades entre os 8 e os 17 anos, que foram ouvidas no âmbito
neste relatório e de onde emanam recomendações como a criação de uma estratégia
nacional para a erradicação da pobreza infantil. “Quando não há comida, os meus
pais fazem isto: deixam de comer para nos dar à gente”, conta, por seu turno,
um miúdo de 14 anos, pai desempregado. “A minha avó foi com a gente às compras
e ela pagou as compras duma semana e coisas assim”, outro adolescente, 16 anos.
No relatório lêem-se ainda frases
assim: “Alguns [colegas da escola] não devem comer muito, ou mesmo, não devem
ter refeições (…). Eles não contam, mas dá para reparar.” E ainda: “A minha mãe
ficou sem trabalho (…). Ela tirou-me da natação, da ginástica, da música (…) do
inglês.” E há o caso do miúdo de 9 anos, mãe desempregada, que relata: “O banco
até já esteve a ameaçar os meus pais que ia tirar a casa.”Estes relatos remetem-nos para as consequências práticas e quotidianas de vários anos de desinvestimento nas políticas públicas de apoio à família, como constata o estudo encomendado a uma equipa de investigadoras do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, coordenado pelas investigadoras Karin Wall e Ana Nunes de Almeida e que mostra como a crise está a repercutir-se na vida das crianças, “com consequências a médio e longo prazo”.
“A partir de 2010, a situação económica e financeira de Portugal agravou-se com a adopção de um conjunto de medidas de austeridade que tiveram e continuam a ter repercussões directas no bem-estar das crianças a nível da saúde, da educação e dos apoios sociais do Estado às famílias, especialmente às mais carenciadas”, escrevem as autoras do relatório, sublinhando que “a elevada taxa de desemprego” gera “não só situações de carência económica grave, mas também de elevada instabilidade emocional e psicológica que afectam as vivências das crianças”.
O diagnóstico relativo a 2012 mostra-nos que nesse ano havia 678 mil pessoas em situação de incumprimento face a dívidas contraídas. E, desde então, continua a aumentar “a taxa de privação das famílias com crianças em situação de pobreza relativamente à capacidade para pagar dívidas, empréstimos, rendas, contas e despesas imprevistas, assim como a possibilidade de ter um carro”.
Casais desempregados aumentam 688%
O retrato em números mostra-nos que, em 2011, havia 560 mil crianças em risco de pobreza e exclusão social. “Cerca de uma em cada três crianças (28,6%) encontrava-se em risco de pobreza ou exclusão social”, precisa o relatório, para sublinhar ainda que 21,8% das crianças viviam “em agregados com rendimentos per capita inferiores a 416 euros por mês”.
Se considerássemos o risco de pobreza antes das transferências sociais (subsídios, pensões, abonos de família…), teríamos 33% das crianças em situação de vulnerabilidade económica. Nas famílias numerosas (três ou mais crianças) e monoparentais, o risco de pobreza cresce para 31% e 41%, respectivamente. E nas famílias monoparentais – os Censos 2011 mostravam que estas perfaziam 14,9% do total de famílias –, em que a figura parental fica desempregada, o risco de pobreza sobe para os 90%.
O desemprego é assim meio caminho andado para a pobreza. Nas famílias de casais com filhos em que um dos adultos está desempregado, o risco de pobreza atingia uns expressivos 34,3%. E se os dois adultos ficarem desempregados, o risco de pobreza sobe para 53,2% – mais de metade, portanto. Lembremo-nos agora que, em 2011, eram cerca de 723 mil os adultos desempregados com crianças a seu cargo. Não surpreende assim a conclusão de que, naquele mesmo ano, mais de um quarto das crianças portuguesas (25,2%) estivesse em privação material.
E a situação piorou, entretanto. Entre Outubro de 2010 e Junho de 2013, o número de casais desempregados inscritos nos centros de emprego aumentou mais de 688%: de 1530 para 12.065. Em Fevereiro de 2013, havia 26.374 indivíduos a viver em casal em que ambos os cônjuges estavam desempregados. Daqueles, apenas 5602, ou seja, cerca de um quinto, tinham direito à majoração de 10% no subsídio de desemprego. “O stress causado pela falta de dinheiro e a incerteza em relação ao futuro afecta não só o relacionamento entre o casal, mas também o relacionamento entre pais e filhos, que, em casos extremos, poderá levar a situações de negligência ou mesmo de violência”, alerta o relatório."
Natália Faria, Publico de 28OUT14